Aplicação prática

Como avaliar cada componente da Escala de Coma de Glasgow

Observe, estimule de forma padronizada e registre o melhor comportamento observado em abertura ocular, resposta verbal e resposta motora. Quando houver fator de interferência, use NT em vez de inventar um valor.

Como avaliar a abertura ocular (O)?

Observe primeiro se o paciente abre os olhos espontaneamente. Se não, use estímulo sonoro; persistindo ausência de resposta, aplique pressão padronizada.

Locais de pressão: pressão na extremidade dos dedos, pinçamento do trapézio e incisura supraorbitária. Evite estímulos não padronizados.

Como avaliar a resposta verbal (V)?

Avalie orientação e qualidade da produção verbal. Resposta orientada pontua 5; conversação confusa 4; palavras isoladas inteligíveis 3; sons ou gemidos 2; ausência 1. Quando afasia, intubação ou outro fator impedir avaliação verbal confiável, registre V(NT).

Como avaliar a resposta motora (M)?

Peça uma ação simples. Se não houver resposta adequada, aplique pressão e diferencie localização, flexão normal, flexão anormal, extensão e ausência. Bloqueio neuromuscular, sedação profunda ou limitação periférica podem tornar o componente não testável.

Quais são as armadilhas mais comuns?

  • Sedação: opioides, benzodiazepínicos e outros sedativos podem reduzir respostas observáveis. Registre o contexto.
  • Hipoglicemia, hipóxia e hipotermia: podem alterar o nível de consciência sem definir, por si, a causa estrutural.
  • Afasia expressiva não é rebaixamento de consciência — mas também não se compensa. Paciente com lesão de Broca pode compreender comandos e não produzir fala. A resposta verbal continua sendo pontuada pela produção verbal efetivamente observada. Se a afasia impede avaliação verbal confiável, registre V(NT) e anote o fator de interferência. Nunca atribua V4 ou V5 por compreensão preservada — a compreensão é documentada no exame neurológico, não convertida em pontos da ECG.
  • Trauma facial ou edema periorbital: se impede avaliação ocular, registre O(NT), não O1.
  • Intubação ou traqueostomia: registre V(NT).
  • Paralisia ou bloqueio neuromuscular: podem tornar M não testável.
  • Escore isolado: não substitui exame neurológico, contexto, tendência temporal ou avaliação de via aérea.

Exemplos clínicos

Caso 1: trauma cranioencefálico

Homem, 45 anos, vítima de queda de altura, TCE fechado. Abre os olhos ao chamado (O3), responde confuso (V4) e obedece comando motor (M6). ECG = 13. O número não substitui a avaliação clínica e a evolução seriada.

Caso 2: intoxicação

Mulher, 32 anos. Olhos abrem à pressão (O2), emite palavras isoladas inteligíveis, sem formar frases (V3) e apresenta flexão normal (M4). ECG = 9. Registre a causa presumida e acompanhe a tendência.

Caso 3: AVC com afasia de expressão

Homem, 67 anos, AVC isquêmico em território de Broca. Abre os olhos espontaneamente (O4). Não emite palavras; compreende e executa “levante o braço” (M6). Componente verbal não avaliável de forma confiável → V(NT).

Registro correto: O4 V(NT) M6 — afasia de expressão, compreensão preservada. Não some o total. Documente a compreensão preservada em texto livre.

Como registrar Glasgow no prontuário?

Registre horário, componentes e fatores de interferência. O total é secundário ao padrão O/V/M.

08:30 — O3 V4 M5 = ECG 12. Responde confuso. Sem sedação.

10:15 — O4 V5 M6 = ECG 15. Alerta e orientado.

11:40 — O4 V(NT) M6 — intubado. Total não somado.

Como avaliar Glasgow em paciente sedado, intubado ou afásico?

Marque como NT apenas o componente cuja avaliação foi inviabilizada. Intubação interfere na resposta verbal; edema periorbital pode impedir abertura ocular; bloqueio neuromuscular pode impedir resposta motora. Não transforme ausência de testabilidade em pontuação 1 e não some um total artificial.

Fontes e revisão

Referências principais

  1. 1

    Teasdale G, Jennett B. Assessment of coma and impaired consciousness. A practical scale. Lancet. 1974.

  2. 2

    Teasdale G, et al. The Glasgow Coma Scale at 40 years: standing the test of time. Lancet Neurol. 2014.

  3. 3

    Brennan PM, Murray GD, Teasdale GM. Simplifying the use of prognostic information in traumatic brain injury. J Neurosurg. 2018.

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Dr. Carlos Felipe, autor e revisor técnico da Escala de Glasgow
Autor e revisor técnico

Dr. Carlos Felipe

Médico — CRM-MG 105.721

Responsável pela revisão técnica e editorial deste conteúdo. A calculadora é uma ferramenta de apoio ao registro e à compreensão da Escala de Coma de Glasgow; a interpretação depende do contexto clínico.

Última revisão: 15 de agosto de 2026CRM/MG 105.721